Autora: Deolinda Vieira
Historia
Ilha do arquipélago de Cabo Verde, Fogo, tem 476 km2, 31 km de comprimento por 29 km de largura. A sede do Fogo é São Filipe, cidade com cerca de 6000 habitantes.
A ilha do Fogo está dividida em três municípios: Mosteiros (que inclui a freguesia de Nossa Senhora da Ajuda), Santa Catarina do Fogo (Santa Catarina) e São Filipe (São Lourenço e Nossa Senhora da Conceição).
A ilha foi descoberta em maio de 1460, juntamente com as ilhas de maio e Santiago, e foi a segunda do arquipélago de Cabo Verde a ser povoada, logo a seguir a Santiago, de quem está próxima, a cerca de 50 km. Inicialmente, a ilha do Fogo chamava-se São Filipe, tendo mudado de nome, provavelmente, por causa do vulcão que alberga.
A ilha tem o formato de um vulcão, que ainda está ativo, e o topo deste é o ponto mais alto do território, com 2829 metros.
Pouco anos depois de ter sido descoberta, a atual ilha do Fogo ganhou grande importância na economia de Cabo Verde. O algodão plantado na ilha passou a ser a moeda de compra de escravos na costa africana, numa altura em que só era possível resgatá-los com mercadorias produzidas no arquipélago.
No entanto, devido às constantes secas que desde sempre assolaram o Fogo, muitos habitantes optaram por emigrar, especialmente a partir de finais do século XVIII e no século XIX. Os habitantes do Fogo aproveitavam a passagem dos baleeiros norte-americanos nos portos de Cabo Verde para poderem viajar para os Estados Unidos da América, onde havia procura de mão de obra.
Por ter solos de terra fértil, favoráveis à agricultura, a ilha foi, desde logo, escolhida para ser povoada. Entre as atividades agrícolas do Fogo destacam-se a produção de café e de vinho. Posteriormente, desenvolveu-se a produção de algodão e de bens agroindustriais, como as conservas, que viriam a ser exportados para os Estados Unidos da América, país com quem Cabo Verde, devido à emigração, mantinha relações privilegiadas. A produção do vinho “Manecom” é feita na aldeia de Chã das Caldeiras, onde os cerca de 300 habitantes locais plantam as vinhas nas terras férteis na base do vulcão. O café é essencialmente proveniente de Mosteiros, localidade do norte da ilha com cerca de 600 moradores, sendo assim a segunda maior do Fogo, atrás de São Filipe.





Cultura geral
A Ilha do Fogo tem uma particularidade singular caraterizada pela sua natureza e diversidade paisagística cujos elementos característicos são a presença do vulcão, a bordeira, o perímetro florestal de Monte Velha, a cratera, os cones vulcânicos, as colunas de lavas vulcânicas, as espécies endémicas e as áreas protegidas.
Um lugar também rico em manifestações culturais, música, artesanato e produtos típicos como café, queijo e vinho do Fogo e historia, como contam os sobrados, as construções urbanas do passado colonial. Entre histórias e danças, o povo da ilha do Fogo caracteriza-se por apontamentos físicos muito distintos das outras ilhas cabo-verdianas, como os cabelos louros e olhos azuis, herança genética do francês Armand Montrond.
Além da herança genética, Armand Montrond deixou uma herança cultural distinta, que se revela nas técnicas de produção de vinho e do café e na música. Para além do artesanato local, confecionado em lava, Chã das Caldeiras é o sítio ideal para se deixar levar pelos sons da dança da “Talaia Baixo” ou dos bailes populares que acontecem por toda a ilha. A “bandeirona” é uma manifestação cultural das mais populares de todo o arquipélago, a qual vale a pena assistir, por ocasião do 1º de Maio e as festas juninas.
Festas dos Municípios da Ilha do Fogo
1° de Maio: Dia do Municipio de Sao Filipe. A Festa do Dia do Município de São Filipe coincide com o dia do santo padroeiro e acontece o 1 de Maio. É o evento principal do concelho que ocorre simultaneamente com as celebrações religiosas/culturais da Festa das Bandeiras em homenagem a São Filipe na última semana de april até ao 1 de Maio. Nestes dias várias manifestações e eventos culturais se alternam, como provas atléticas, teatro e música e na tarde do 1° de maio se pode assistir a “Cavalhada final”, a famosa corrida de cavalos que ocorre no centro da cidade com cavalos também vindos de outras ilhas do arquipélago. Até tarde da noite, na praça do presídio alternam-se artistas cabo-verdianos e não só, com concertos de música e dança locais. Pequenos quiosques distribuídos na cidade oferecem no longo da festa espetos e frango grelhado, bebidas e doces.
15 de Agosto: Dia do Município dos Mosteiros. A Festa do Dia do Município dos Mosteiros coincide com o dia da santa padroeira de Mosteiros, Nossa Senhora da Ajuda, 15 de Agosto. É a festa principal dos Mosteiros e acontece durante uma semana, geralmente de 8/9 a 15 de Agosto. Nos dias 12, 13 e 14 acontecem vários eventos culturais, desportivos e políticos, e atividades como concurso de vozes, de moda, corrida de botes, jogos e festivais. No dia 15 se celebra a missa e depois, a festa continua com o festival de Praia lancha, um evento musical com shows ao vivo, artistas e dança que dura até tarde da noite.
25 de Novembro: Dia do Município de Santa Catarina. O 25 de novembro é o Dia do Município que coincide com a celebração de Santa Catarina, sua padroeira. Já nos dias anteriores, se pode participar de vários eventos programados como o Festival Nha Santa Catarina, uma grande exibição de música e cantores com muitos concertos e com músicos de grande valor. Para além do Festival Nha Santa Catarina, a Festa do Município tem uma forte agenda de vários eventos como desfile de Moda Inclusiva; o Festival da Tabanca; a exposição de Arte Linear e Geometria Artística; a feira de Artesanato e Gastronomia; e vários encontros culturais como lançamentos de livros. Também as atividades desportivas em programa são muitas e variadas, como o torneio de Futebol; o Torneio de Futsal Masculino e Feminino; o Torneio de Andebol no mesmo espaço; atletismo com prova de velocidade e de resistência etc.
Festas da bandeira
As festas das Bandeiras representam o maior evento folclórico do Fogo, a expressão da cultura popular local que ao mesmo tempo herda a componente histórica colonial mostrando-se numa manifestação sincrética, onde a parte africana e a europeia se encontram. As Festas de Romaria, vulgarmente chamadas Festas das bandeiras, são dedicadas a vários santos. Essas, em regra demoram três dias: a antevéspera, em que se organiza o canizade , uma máscara e dança que se diz de origem africana; a véspera, em que é dado um baile na casa do festeiro, e o dia da bandeira propriamente dito, que consiste, em regra, numa cerimónia religiosa e almoço. Apesar de ser uma festa profano-religiosa, tem um sentido quase ou totalmente religioso para os foguenses. O sentimento que se tem paro o santo é de devoção e respeito. O santo, da Bandeira, é o protetor, o santo da família, a partir do qual se pode obter ajuda nos momentos difíceis. Cada família tem o seu santo a proteger e como agradecimento e reconhecimento festeja-lhe a Bandeira. As Festas das Bandeiras tem lugar nos dias de São João Baptista (24 de Junho), São Pedro e São Paulo (29 de Junho) e, também, na de São Sebastião (20 de Janeiro) e São Filipe (1° de Maio). São muitas, diferentes e distribuídas ao longo de um ano em todos os concelhos, destacam-se:
25 de Abril – 1° de Maio: Festa do Município de São Filipe “Nhô San Flipe”. 10-11 de Maio: São Filipe em Sumbango. 13 de Maio: Nossa Senhora de Fátima em Fajãzinha. 22 de Maio: Santa Rita. 13 de Junho: Santo António. 24 de Junho: São João. 29 de Junho: São Pedro. 5/6 de Julho: São Paulinho. Último domingo de Julho: Nha Sant’Ana. 5 de agosto: Nossa Senhora do Socorro. 10 de agosto: Festa de Nhô São Lourenço. 15 de Agosto: Nossa Senhora da Ajuda.




Festival do Café: Mosteiros
Ter contacto com o café do Fogo é ter o privilégio de degustar um dos melhores cafés do planeta. O café do Fogo é 100% biológico. Este facto faz dele um café especial. Não é de estranhar que tenha tanta fama, apesar de ser produzido em pequena quantidade. Após atingir as 500 toneladas em 1900, actualmente a produção é de pouco mais de 100 toneladas anuais.
A sua introdução na ilha do Fogo terá ocorrido no século XVIII, aquando da instalação do morgadio de Monte Queimado no concelho dos Mosteiros, pelo seu primeiro proprietário, Pedro Fidalgo de Andrade. Em 1934, o café do Fogo foi medalha de ouro da Exposição Colonial no Porto, sendo considerado o melhor café do império português. Por esta altura já era um dos produtos ultramarinos com maior influência na Balança Comercial do país.
O Festival do Café do Fogo (FCF) é uma iniciativa da Câmara Municipal dos Mosteiros institucionalizada em 2014. A realização do Festival é uma forma de valorizar e promover aquele que é um dos melhores cafés do mundo, bem como homenagear todos quantos têm contribuído para a afirmação da cafeicultura no concelho. Se comemora no mês de Abril, normalmente não tem uma data fixa.
Gastronomia
É do milho e feijão servido com carnes diversas e hortaliças que se fazem os pratos típicos da gastronomia foguense. A especialidade local é a “Djagacida”, uma feijoada acompanhada de carne de porco salgada, couve e cuscus de milho. Pode-se ainda experimentar a “cachupa“, a “papa de milho” com leite de cabra, fresco ou coalhado, ou, porque alguns o preferem, com manteiga de vaca e o “gufongo“, uma bolacha de massa de milho.
O famoso queijo da ilha do Fogo
Uma importante fatia da produção de queijo de Cabo Verde é feita na Ilha do Fogo. O seu sabor é único e proveniente de cabras criadas ao ar livre, estando a maior parte em perfeita simbiose com a natureza, que obtém o seu alimento das pastagens que o vulcão ajuda a criar.
Em Cabo Verde, tradicionalmente, este produto é produzido artesanalmente, depois do coalho do leite ser armazenado, ficando a fermentar e colocado nas formas e deixado a repousar até ao dia seguinte. Após este processo, o queijo é levado pelas vendedeiras ambulantes, que o distribuem pela população, e por vendedores que os levam para as outras ilhas para serem distribuídos.Para além dos métodos de produção e embalamento tradicional, hoje existe queijo feito na ilha do fogo de forma automatizada, em fábricas, por cooperativas de produtores, que está a trabalhar para ser certificado. Com a evolução dos sistemas de cura, o queijo pode ter um prazo de validade superior, atingindo os 12 meses de validade.



Vinhos de Chã-das-Caldeiras
O vinho característico destas terras vulcânicas, tanto o da região de Chã das Caldeiras (nas suas variedades, tinto, branco, rosé, passito e moscatel) como o “manecom” (um caldo de uva fermentada com um abor forte, doce e seco).
A introdução da vinha e a produção de vinho em Cabo Verde remontam ao século XVI. A Ilha do Fogo revelou-se como a melhor potencialidade para o cultivo do vinho no Arquipélago. O vinho mais conhecido é o de fazer em Chã das Caldeiras e é chamado Manecon, um vinho tradicional, semi-doce ou seco, caseiro. Ao redor das formações de lava se podem conhecer as montanhas e a terra vulcânica fértil com cultivos de videira.
Música e Dança
Talaia Baxu
É o género musical e de dança da ilha do Fogo mais conhecido no país e além-fronteiras. Acredita-se que tenha surgido nos meados do séc XIX em Mosteiros, sendo seu nome uma referência à localidade de Atalaia (Talaia em crioulo). Terá evoluído de outros ritmos que se tocavam e se dançavam antigamente nos bailes que se realizam em povoados como Atalaia. Minó di Mama é um dos nomes sonantes deste género musical e dançante da ilha do vulcão, que se ouve um pouco por todo o país.












